LIÇÕES DE SYD FIELD, O GURU DOS ROTEIROS DE HOLLYWOOD

novembro 28, 2013

O que é um bom roteiro? Essa pergunta foi feita por Syd Field ao longo de sua vida. No último dia 17 de novembro, o roteirista que conquistou Hollywood morreu em Los Angeles, aos 77 anos, com a tranquilidade de saber que conseguiu muitas respostas.

Em sua carreira, o californiano foi consultor de grandes estúdios de cinema, deu aulas para milhares de roteiristas aspirantes e produziu oito livros sobre a arte de criar roteiros de ficção. O mais famoso deles, Roteiro- Os fundamentos do roteirismo,  foi escrito em 1979 e se tornou um dos maiores clássicos do gênero.

Para ele, todos os bons filmes tinham uma fundação estrutural forte e sólida. Escrever um roteiro era um processo artesanal com um passo a passo detalhado, onde todas as coisas se relacionam e nada é por acaso.  A estrutura é o que mantém a relação e a coesão entre as partes e o todo. A história é esse todo, interligando início meio e fim, seja de maneira linear ou não.

A sua contribuição mais importante como pensador do visual storytelling foi a sistematização do Paradigma da Estrutura Dramática, um modelo conceitual de roteiro que é explicado no final deste texto. Esses elementos podem ser encontrados em filmes como Chinatown, Beleza Americana, Matrix, Senhor dos Anéis e muitos outros.

Para Syd Field a vida era similar a um roteiro: o fim de uma coisa é geralmente o início de outra. Ele era um apaixonado por filmes e também gostava de praticar meditação.  Sobre a sua experiência em uma sala escura de cinema, ele escreve que se sentia tomado por sentimentos intensos:

“Nunca sei se estou em busca de respostas para minha própria vida, ou se simplesmente estou lá, quietinho no escuro, dando graças a Deus que não sou eu quem está lá em cima, confrontando todos os obstáculos e desafios aos quais estou assistindo. Porém, sempre tenho a certeza de que, em algum momento, pode ser que aquelas imagens refletidas despertem uma epifania, uma consciência profunda, uma esperança capaz de abarcar todo o sentido da vida. Quando olho para trás e contemplo as marcas da minha jornada, procuro pensar nisso. Vejo de onde parti, o chão em que pisei e o caminho que trilhei, e percebo que o que realmente importa não é o destino final, mas sim o caminho em si”.

Preparamos algumas dicas baseadas nos ensinamentos de Syd Field:

Você não tem bastante informação apenas com a ideia. Você tem que dramatizá-la

O mais difícil não é saber como escrever, mas sobre o que escrever. Fatos, dados, pesquisas e entrevistas não são uma história. Se você não sabe qual é a linha narrativa que deve criar, tudo fica mais complicado. Antes de começar qualquer projeto, faça duas perguntas: sobre o que se trata a sua história? Quem é o personagem principal e o que vai acontecer? Achar um assunto ou tema é reduzir a ideia a poucas frases (3 ou 4) que traduzem, genericamente, sobre quem (personagem) e o que é (ação) a sua história.

Defina a necessidade dramática: toda história é conflito

Se você conhece a ação e o personagem de seu roteiro, pode definir a necessidade dramática. Ela sempre se relaciona com o que o personagem principal deseja e busca alcançar durante o roteiro. O que o move através da ação? Se você conhece a necessidade dramática, pode criar obstáculos a ela. Como ele vence esses obstáculos (físicos ou psicológicos) é a sua história.

Roteiro é uma história contada em imagens

Uma peça de teatro é contada principalmente por meio do diálogo, como uma conversa ao vivo. Já o romance literário pode trazer dezenas de parágrafos com digressões sobre sentimentos, análises e memórias que acontecem apenas no universo mental dos personagens. Filmes são diferentes. Um roteiro traz diálogos e descrições, mas essencialmente, ele conta uma história com imagens. Ele traz o quê filmar. Explicações demais tiram o ritmo da narrativa. No cinema, o ideal é que o leitor veja o que a câmera vê.

Certa vez, ao ser perguntado sobre qual era o problema mais comum dos seus alunos, Syd Field respondeu: “São muitos. Mas o principal é que a maioria quer contar sua história em diálogos e palavras, explicando os pensamentos, sensações e emoções dos personagens”.

Diálogos nunca são por acaso

Diálogos têm dois propósitos centrais: fazem a história ir pra frente e revelar informações sobre um personagem principal. “Se algum dos seus diálogos não servir para esses propósitos, elimine-os”, avisa o guru.

Um roteiro sempre se move pra frente, em direção a resolução

Um roteiro é diferente de um romance. Nele, cada cena tem que levá-lo para algum lugar e empurrar a história para frente. Num roteiro, o personagem não deve vagar sem destino. A estrutura dramática é um arranjo linear de fatos relacionados que levam à resolução dramática de um incidente.

Comece pelo final

Qual é o início do seu roteiro? Como ele começa? Quando você sabe o seu final, pode escolher efetivamente o início. Planejem sua história de forma que saiba para onde ela vai.

“Quando você cozinha algo, você não mistura as coisas e espera para ver no que dá! Você sabe o que vai cozinhar antes de entrar na cozinha; tudo o que você tem a fazer é cozinhar.”

 “O paradigma de Syd Field em 3 atos”

Este é um modelo de estrutura de roteiro dividido em 3 atos (início, meio e fim). Entre estes atos, existem pontos de virada que ajudam a passar de um ato para outro. Ou seja, eventos que “engancham” na ação e a reverte noutra direção.

P.S: Para Syd Field, uma página de roteiro deveria corresponder a 1 minuto de filme.

Ato I – Contextualiza os personagens e como eles vivem e se relacionam. Depois, quase no meio do ato I, algo acontece que leva o roteiro para uma situação dramática. Este incidente, que foge do controle do personagem, é a causa dos acontecimentos que virão.

Exemplo: em Toy Story 3, é quando os brinquedos descobrem que Andy vai doar os brinquedos.

Plot Point#1 – É o primeiro ponto de virada do filme. O personagem precisa tomar uma decisão importante para ficar mais perto de seu objetivo. Essa é a primeira guinada que muda a história.

Ato II – O personagem principal vai crescendo de acordo com os acontecimentos.  Ele enfrenta obstáculo após obstáculo, que o impedem de alcançar seu objetivo.

Plot Point#2 – As escolhas do personagem o levaram para um conflito que o distancia de seus objetivos ou o leva a uma falsa vitória.

Ato III – É o clímax dramático da história, quando coisas intensas acontecem e levam ao o ato da resolução.

 

**Por Carolina Cunha

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